
Eu ainda não estou na idade, mas essa história do tal toque retal para prevenção do câncer de próstata era aquele tipo de assunto que eu costumava evitar. O preconceito com o negócio é tão grande que 99% dos homens associa o exame com uma relação sexual com o dedo do médico.
A sociedade machista buzina a vida inteira na cabeça de todos os homens que esta é uma relação sexual proibida e vergonhosa. Só que, depois dos 50, tudo vira um tal de "Vai ser bom para você." Ora, se mudar a cabeça fosse tão fácil assim não existiriam terapeutas. E isso não tem nada a ver com a aceitação dos homossexuais - o fato de eu respeitar as opções dos outros não significa que eu queira fazer estas opções.
Pois é, mas parece que eu e todos os outros medrosos nos livramos do tal exame, pelo menos numa base mais contínua. O Instituto Nacional do Câncer afirma que fazer o exame de toque retal não traz ganho nenhum (não sei se isso é alguma referência velada a prazer) e, além do mais, pode trazer prejuízos.
O fato é que um grande número de homens tem o tal do tumor, só que ele nunca se desenvolverá. E, se você for um deles, e o médico o encontrar, você fatalmente será submetido a um tratamento cheio de efeitos colaterais. Um tratamento que, na maioria da vezes, é totalmente inócuo e dispensável.
Dessa forma, não é indicado que homens sem sintomas (sangue na urina; necessidade freqüente de urinar, jato urinário fraco; dor ou queimação ao urinar) se submetam rotineiramente ao toque retal e ao exame de dosagem do antígeno prostático específico (PSA, na sigla em inglês). A Organização Mundial de Saúde não recomenda a estruturação de programas de rastreamento para o câncer de próstata.
Os argumentos do INCA estão muito fortes e bem estruturados. É claro que os médicos vão espernear, porque vão ter menos clientes. Vi alguns deles falando contra a medida, mas a única defesa que apresentaram é que não há outro exame eficiente para a detecção do câncer de próstata. Ora, o INCA não disse que o exame é ruim, disse que os resultados obtidos com a sua realização não trazem benefícios em dimensão suficiente para justificar sua prescrição para todos os homens em bases regulares.
Vi a reportagem no Diário da Saúde (Toque retal para prevenção de câncer de próstata não deve ser rotina).
Atualização:
O Átila me alertou sobre um eventual retrocesso na questão. O fato é que o Inca parece ter cedido um pouco às pressões dos médicos e emitiu uma nova nota, afirmando que:
Estes exames [PSA e toque retal], que podem diagnosticar doenças benignas ou malignas da próstata, devem continuar a ser feitos quando o médico, em concordância com o paciente, julgar necessário.
- grifo meu.
Depois reafirma tudo o que havia dito antes, ou seja, que não há evidências para que o exame seja recomendado para toda a população.
Parece ser um daqueles casos bem típicos, em que a evidência dos ganhos econômicos dos médicos quer ser mais forte do que as evidências científicas. Pelo menos, o INCA manteve sua postura ao lado das evidências científicas, apesar de que a nota mostra bem que o órgão também é sujeito às pressões políticas - ora, se não há nada de novo a dizer, então por que dizer algo que não acrescenta nada?
Atualização 2:
O Diário da Saúde, onde eu havia lido a reportagem original (citada acima) parece concordar com a minha avaliação. Eles publicaram um novo artigo comentando a nova nota: INCA mantém restrições ao exame de toque retal
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