O que a imprensa falou:
O que você prefere: ficar duas semanas sem Internet ou duas semanas sem sexo? 46% das mulheres e 30% dos homens responderam que abririam mão do sexo, mas não da sua conexão com o resto do mundo.
Agora falo eu
Foi assim que saiu em todos os jornais. Estes e vários outros dados foram divulgados em um Press Release da Intel, no dia 15, segunda-feira (Most Adults Find Internet Access Essential to Daily Life in Today's Economy: Intel Survey.)
Até a manhã do dia 16, nenhum grande site brasileiro, aqueles da mídia tradicional, havia prestado atenção na tal pesquisa. Mas vários pequenos jornais ao redor do país já noticiavam os dados como se fossem resultados de uma pesquisa científica - acompanho o Google News quase o tempo todo. Vi isso com algum entusiasmo, deduzindo que pelo menos as grandes redações foram capazes de verificar o real alcance do quiz e não quiseram entrar na onda.
Infelizmente, à tarde, uma agência internacional embarcou, soltou uma matéria baseada nos mesmos dados, sem fazer nenhuma observação sobre a metodologia. Aí todo mundo entrou na roda e todos os grandes sites publicaram. A notícia foi para a primeira página do Google News.
Resultado: os dados foram para a imprensa e foram apresentados aos leitores com toda a cara de uma pesquisa científica.
E não é? Decididamente não.
A manchete do release da Intel é Most Adults Find Internet Access Essential to Daily Life in Today's Economy: Intel Survey. Aí está a primeira fonte do engano. Survey é um termo comumente associado a pesquisas científicas e é com esse termo que a maioria dos cientistas apresenta suas pesquisas de coletas de dados.
O trabalho da Intel deveria ser chamado de Quiz, um termo já padrão na Internet para pesquisas descompromissadas. A pesquisa foi feita online pela Harris Interactive, que em seu próprio site utiliza um termo mais adequado: Poll.
Ao final do release, a Intel publicou um alerta, que parece ter sido desconsiderado por todos os jornalistas que redigiram matérias a respeito:
This survey was conducted online within the United States by Harris Interactive on behalf of Intel from Nov. 18-20 among 2,119 adults ages 18 and older. This online survey is not based on a probability sample and therefore no estimate of theoretical sampling error can be calculated.
Na minha tradução:
Esta pesquisa foi feita online com moradores dos Estados Unidos pela Harris Interactive em nome da Intel, de 18 a 20 de Novembro, com 2.119 adultos com idades de 18 anos ou mais. Esta pesquisa online não é baseada em uma amostra probabilística e, desta forma, nenhuma estimativa de erro teórico amostral pode ser calculada. (grifo meu)
É um pequeno alerta, mas certamente insuficiente. Ele se refere apenas àquelas informações que se ouve em todas as pesquisas eleitores, em que se diz que os dados podem ter variações de x% para mais ou para menos. O alerta já seria melhor unicamente com a separação desta frase grifada em duas, mas o and therefore restringe a importância da amostra não probabilística como se ela afetasse não os resultados como um todo, mas apenas o cálculo do erro amostral.
Pesquisa não-probabilística
Significa que a pesquisa não foi feita com uma amostra representativa da população norte-americana e, portanto, não pode ser apresentada como foi.
O release da Intel começa assim: Most U.S. adults find Internet access essential to daily life in today's economic climate.... (A maioria dos adultos norte-americanos acha o acesso à Internet essencial à vida diária no atual clima econômico).
Isto não é verdade com base unicamente na pesquisa. Embora uma pesquisa científica possa eventualmente chegar a esta conclusão, o fato é que a pesquisa feita pela Intel apenas diz que a amostra de 2.119 adultos pesquisados pensa assim. Não é possível fazer extrapolações para a população do país porque a amostra pesquisada não é representativa dessa população.
Meio inadequado
A pesquisa pergunta a importância do uso da Internet, com o objetivo de extrapolar os resultados para o restante da população, em um questionário feito através da própria Internet.
Há um desvirtuamento claro, sendo óbvio que as pessoas que utilizam a Internet valorizam-na mais do que as que não a utilizam rotineiramente, e que as pessoas que utilizam a Internet intensamente - várias horas por dia - tendem a valorizá-la mais do que as pessoas que apenas a utilizam de forma moderada, e assim por diante.
Alguém que trabalha utilizando a Internet, por exemplo, tenderia a ver a indisponibilidade de sua conexão como uma ameaça ao seu próprio emprego e adotaria um sistema de valores diferente.
Segundo o site da Harris (opção Why Partner With Us, Online Methodoly), a pesquisa é feita entre participantes de uma base de dados de potenciais respondentes de pesquisas que foram recrutados online, por telefone, carta ou em abordagens pessoais, de forma a aumentar a cobertura da população e melhorar a representatividade. A empresa também afirma, no último parágrafo, que utiliza uma técnica proprietária para ajustar, quando aplicável, a predisposição das pessoas para se conectarem à Internet.
Parece-me bastante adequado a um serviço comercial. A crítica aqui é de que a pesquisa não é científica e, mesmo ressaltando o cuidado em prover resultados precisos, a empresa não diz em nenhum lugar que estaria vendendo pesquisas científicas, em termos acadêmicos, adequadas para publicação em um jornal revisado pelos pares.
Mesmo porque cientistas não usam técnicas proprietárias em suas pesquisas e artigos científicos devem trazer todas as informações necessárias para que a pesquisa possa ser reproduzida por outros.
Conflito de interesses
Todas as pesquisas científicas, nos Estados Unidos, onde o release da Intel foi divulgado, devem publicar qualquer conflito de interesse que exista entre os pesquisadores ou os financiadores e o objeto da pesquisa. Um exemplo bastante comum são as participações acionárias dos pesquisadores em empresas que lidam com o objeto de suas pesquisas.
Isso não significa que o pesquisador estaria maquiando a pesquisa - apenas exige que ele deixe claro os seus interesses e os interesses das fontes de financiamento, para que outros cientistas e o público possam avaliar a questão com seu próprio sistema de valores e ética.
Neste caso também não significa que a Intel ou a executora da pesquisa tenham tido qualquer má-fé ou tenham manipulado os dados. A legislação apenas diz que isto deve ficar claro na divulgação da pesquisa.
E qual é o conflito de interesses aqui? Ora, a Intel tem todo o interesse no aumento do uso da Internet, que leva diretamente à compra de mais computadores. Pesquisas que afirmam que as pessoas gostam tanto assim de Internet, mais até do que de sexo, fazem crescer o interesse na compra dos produtos da empresa.
Resumo
A pesquisa não é científica. Os números apresentados são curiosos. Apenas isso. Não os leve a sério demais.
A Intel errou na divulgação ao extrapolar os resultados para a população norte-americana.
A imprensa errou muito ao não observar o óbvio. Qualquer jornalista, mesmo não sendo especializado em divulgação científica, deveria ser capaz de ver claramente que o release não contém dados de uma pesquisa científica.
Para aqueles que são menos acostumados com o assunto, releases de divulgação científica trazem nomes de pesquisadores, instituições e periódicos científicos onde o trabalho foi ou será publicado. Cabe ao jornalista entrevistar outros cientistas da mesma área e checar se a publicação é revisada pelos pares.
Neste assunto específico, talvez também pudesse ser importante ouvir a opinião de psicólogos sobre a questão: É válido comparar Internet e sexo?
Para quem quiser checar como os jornalistas brasileiros e portugueses fizeram suas matérias, veja esta consulta ao Google News.
Avisos de praxe
Fiz contato com as duas empresas, por email com a Harris Interactive, e por meio do formulário de atendimento à imprensa da Intel, avisando sobre este artigo. Os contatos foram feitos ontem às 08:00 hs. Até o momento, nenhuma das duas se manifestou.
As marcas citadas são de propriedades das respectivas empresas.
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