Preliminares
O que poderia ser uma "ciência preliminar"? Você se arriscaria a responder?
Uma hipótese não seria, porque uma hipótese está mais para "preliminares da ciência" do que para uma ciência preliminar. Aqui, preliminar é qualificativo de ciência; ou seja, é ciência, ou seria, mas de algum "tipo especial".
Mas, antes de prosseguirmos em busca do significado do termo, é necessário contextualizar a questão e contar de onde ela surgiu.
Fronteiras do planeta
Nesta última quarta-feira, a revista Nature publicou uma reportagem especial intitulada Planetary Boundaries, fronteiras planetárias (http://tinyurl.com/planetboundaries). Na verdade, a revista apenas deu destaque a um artigo específico, já que o "especial" é composto do próprio artigo, dos comentários sobre o artigo feitos por sete especialistas no assunto e de um editorial dando a versão da revista, ou seja, funcionando como um oitavo especialista.
O artigo em questão é A safe operating space for humanity, de Johan Rockström et al. Para resumir, os 29 pesquisadores que assinam o artigo propõem o estabelecimento de limites "aceitáveis" para as atividades humanas no planeta, tendo em vista os impactos ambientais que essas atividades causam ao próprio planeta. Se a humanidade quiser se manter longe de "alterações ambientais de dimensões catastróficas," ela deve se manter longe dos tais limites, ou fronteiras.
Dado o elevado conceito da revista Nature, é de se considerar que a tal proposta seja "boa ciência," se me permitem o termo mal definido - aquele tipo de ciência que obedece aos padrões tradicionalmente exigidos por publicações revisadas pelos pares.
"Ciência preliminar"
Infelizmente não é assim. É a própria revista quem chama o texto de "ciência preliminar" em seu editorial, em uma frase onde os editores já tentam se justificar:
But even if the science is preliminary, this is a creditable attempt to quantify the limitations of our existence on Earth, and provides a good basis for discussion and future refinement. [eu grifei]
Mas mesmo que a ciência seja preliminar, esta é uma tentativa louvável de quantificar as limitações da nossa existência na Terra, e fornece uma boa base para discussão e aperfeiçoamento futuro.
A frase não é uma condicional, como se poderia depreender de sua leitura isolada; a tradução correta é "Mesmo que a ciência seja preliminar..." e não "se a ciência é preliminar."
Se a frase aparecesse assim isolada, até poderíamos entender. Mas ela vem depois de quatro parágrafos que apontam os vários problemas do estudo - e isto em um texto de sete parágrafos. E a frase citada acima aparece como conclusão das restrições.
Tudo bem, então é um artigo de opinião propondo um novo conceito a ser pesquisado? Eu o vejo assim, no que eu concordo com o restante da opinião, de que seja uma inicativa louvável.
Mas não foi assim que ele foi passado pela revista. Não se trata de uma carta, mas do principal artigo desse exemplar da revista.
O próprio artigo tem a pretensão de cientificidade. O problema é que - e o próprio editoral aponta isto - falta muito para que ele possa ser considerado como tal. Os pressupostos não são totalmente aceitos pela comunidade científica, os conceitos são questionáveis, os dados são ruins e o artigo deixa de lado questões básicas, como ética e as bases econômicas da civilização atual.
Sendo assim, será que "ciência preliminar" tem mais validade do que pseudo-ciência?
Divulgação de não-ciência
Mas por que eu deveria me indignar com isto? É que o problema está no centro da minha atividade profissional, chamada divulgação científica. E aqui a revista Nature está divulgando como se fosse ciência algo que nem mesmo seus editores consideram como tal.
E como isso chega ao público? Ora, é só procurar no Google. "Planetary boundaries" retorna 14.600 ocorrências postadas nas últimas 24 horas (pesquisa em 25/09 às 08h30).
Analisar se todos os textos que se referem ao assunto juntam as ponderações seria tarefa para uma tese de doutoramento e não para um humilde post. Então dei uma olhada só nas citações brazucas. Todo o mundo reproduziu as agências, nem um piu sobre as inconsistências do estudo. A nossa querida Agência Fapesp pisou na bola e não citou nada. Só o Site Inovação Tecnológica fez uma mescla do texto da Fapesp com uma seção de redação própria, fazendo a crítica, intitulada "Limites do estudo". O resto é apologia da desgraça em sites de notícias e blogs - a Folha então... lançou sal e enxofre pelos ares.
E o nosso querido público, destino dos nossos melhores esforços de informação, esclarecimento e educação? Ficou com a famosa "verdade," "a ciência provou" e etc.
Má ciência
E aí, vamos precisar passar para uma análise linguística do que seria "ciência preliminar"? Talvez não seja necessário - acho que dá para aproveitar a frase do leitor Jarl Ahlbeck, que comentou o artigo no próprio site da Nature: Playing with phantasy numbers is just bad science. (Brincar com números fantasiosos é simplesmente má ciência.)
Não existe "ciência preliminar," existe trabalho ruim que não pode ser considerado ciência. Quer descobrir na pele o que é isso? Faça um exercício de "ciência preliminar" em sua tese de mestrado ou doutorado e veja o que seu orientador vai lhe dizer. Ou mande o texto para uma publicação revisada pelos pares.
É claro que existem exceções. Existem orientadores ruins e bancas ruins. Mas agora estamos diante de um ambientalismo que se vale da autoridade da ciência arrebentando com tudo o que é método e prática científica. Fica assim: para ser considerado um cientista, você terá que fazer ciência - a menos que você esteja falando do meio ambiente, onde você até poderá fazer ciência se quiser, mas não será necessário; tudo o que será exigido será rezar na cartilha apocalíptica. É importante destacar que a ciência continua sendo feita na área ambiental, mesmo entre os cientistas ligados ao IPCC - ela apenas não tem mais importância, não tem mais voz e nem vez.
O ambientalismo virou religião quando os pesquisadores começaram a se separar entre os times dos céticos e dos crentes. Crentes não fazem ciência, fazem teologia, uma conta de chegar onde se conhece de antemão a conclusão necessária, bastando massagear adequadamente os dados (ou a história) para que eles "revelem" aquilo que se deseja.
E a turma da divulgação científica entrou no mesmo barco, Nature no leme.
Até a NASA?
E o problema não é isolado. Vejam o caso do alarde feito agora pela NASA ao encontrar moléculas de água na Lua. O mesmíssimo resultado havia sido obtido com a sonda Cassini em 1999, mas os cientistas da missão simplesmente descartaram os dados por serem eles incapazes de sustentar qualquer conclusão. E não escreveram nem um só artigo a respeito.
Mas agora a NASA está às voltas com a luta pela própria sobrevivência. Então agora os dados "mostram de forma inequívoca" aquilo que não mostravam antes. A própria NASA reconheceu em um comunicado que não há diferença entre os dados de 1999 e os coletados agora. Ou seja, pegue um dado ruim, repita a coleta e dois dados ruins passam a equivaler a um dado bom. Legal né?
Acredite se quiser
Voltando ao caso da Nature, apenas para facilitar a vida de quem não quer ir lá no original ler tudo, aí vai minha tradução meia-boca dos parágrafos do editorial onde a Nature aponta o tamanho da caca que ela própria aprontou.
O exercício requer muitas qualificações. Na maior parte, os valores escolhidos por Rockström e seus colegas como limites são arbitrários. Assim são também, em alguns casos, os indicadores de mudança. Há, ainda, pouca evidência científica para sugerir que estabilizar as concentrações a longo prazo do dióxido de carbono em 350 partes por milhão seja o destino certo para evitar a interferência perigosa no sistema climático. Focar nas concentrações atmosféricas dos gases de efeito estufa a longo prazo talvez seja uma distração desnecessária do alvo mais imediato de manter o aquecimento em 2° C acima dos níveis pré-industriais. Também não existe um consenso sobre a necessidade de limitar as extinções de espécies em dez vezes a taxa base, como está sendo aconselhado.
Além disso, as fronteiras nem sempre se aplicam globalmente, mesmo para os processos que regulam todo o planeta [aqui a revista nega o título do próprio Especial]. As circunstâncias locais podem vir a determinar quanto tempo a escassez de água ou a perda de biodiversidade chegarão a um limite crítico.
Atribuir limites "aceitáveis" para processos que, em última instância, determinam a nossa própria sobrevivência, é arriscado também em outros aspectos. Afinal de contas, alguns dos limites sugeridos podem ser mais fáceis de equilibrar com as questões éticas e econômicas do que outros. A interferência humana no ciclo do nitrogênio pode muito bem ter conseqüências prejudiciais a longo prazo, mas a produção de nitrogênio para a agricultura também tem alimentado grandes parcelas da humanidade.
E tem gente que acha que trabalho de divulgação científica é moleza. Mãos à obra.

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