Não gostei do presente de fim de ano do Google. O CatholicGoogle abre uma janela para a Internet segundo os dogmas da religião Católica. Está aberto o precedente para outras "janelas" cristãs de todos os matizes, islâmicas, judias e por aí vai.
Seria um novo "Index"? Para quem não se lembra, Index é a relação de livros proibidos pela Igreja Católica. Embora muitos achem que isso seja coisa da Idade Média, a lista negra do obscurantismo só deixou de ser publicada nos anos 1960, mas há indícios de que ela continua existindo e sendo divulgada internamente como "orientação" aos pregadores [Resposta ao Vanderlei Alves: Chamo de obscurantismo o cerceamento ao acesso a qualquer tipo de conhecimento ou opinião].
Agora o Google lança essa espécie de Index Laico. Usa todo o poder conquistado pela eficiência do seu mecanismo de busca a serviço das visões parciais do mundo. Que tal um ChineseComunistPartyGoogle? Ou um SaraPalinVisionOfTheWorldGoogle?
Talvez os ateus possam pensar em contra-atacar com um DawkinsGoogle. E talvez também isso faça nascer um novo tipo de site de relacionamentos... algo como MyWorldGoogle, em que cada um de nós possa filtrar o conhecimento humano segundo nossa própria ignorância e nossos mais recônditos preconceitos. WhiteGoogle, BlackGoogle, HispanicGoogle and so on.
E outro detalhe pode dar dicas sobre a visão de mundo do Google e de como a empresa se dispõe a usar o poder conquistado com suas bases de dados. Por que um Google católico? O catolicismo é minoritário nos Estados Unidos. É, mas não é no resto do mundo. E o Google é mundial. O que vale é a audiência, a qualquer custo, ainda que seja a custo do apoio a visão parciais do mundo. Talvez um dia seja oportuna a divulgação de preconceitos, mas o que importará? Até lá já estaríamos acostumados. Se estivéssemos nos anos 1930, talvez houvesse lugar para um ArianistGoogle. Tudo dependeria do "mercado".
Fiz algumas comparações entre o CatholicGoogle e o Google sem preconceitos religiosos. De cara deu para ver que o "filtro" só está ajustado para o inglês. Os católicos de língua portuguesa ainda continuam expostos às heresias científicas.
Como não poderia deixar de ser, comecei com Darwin. No Google tradicional, os sete primeiros resultados estão relacionados a Charles Darwin. Na versão católica, o verbete da Wikipedia sobre Charles Darwin só aparece em quinto lugar. Outros verbetes discutindo o que é darwinismo só aparecem a partir da segunda página. O resto só é adequado aos católicos.
O resultado não é muito diferente com "evolution". O primeiro resultado na versão catolicizada é exatamente um artigo dizendo o que a Igreja Católica pensa sobre a evolução. O verbete sobre evolução da Wikipedia é o terceiro. Na primeira página, só mais um texto da Universidade de Berkeley. O restante é tudo catecismo.
Interessante também é uma busca por "sin" (pecado). Os resultados são muito mais parecidos, mostrando bem as origens do danoso conceito.
A todos os católicos que lerem este texto, ressalto minha total tolerância e respeito a TODOS os credos religiosos. E minha total discordância da disseminação de "conhecimentos parciais". O argumento tradicional de que só usa a ferramenta quem quiser não se aplica, porque a simples existência da alternativa pode levar muitos a considerar que não utilizá-la poderia estar ferindo sua própria fé. É algo como uma chantagem.
Torço para que os católicos não caiam em mais essa armadilha mercadológica.
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