Depois de uma fria e tenebrosa, ainda que curta, experiência de total abandono (ô coitado), aqui estou de volta para tentar reestabelecer o dialógo com vosmecês, meus queridos, ilustres e desconhecidos leitores. Digo desconhecido no sentido pessoal, físico - se eu pedir para quem me conhece levantar a mão corro o risco de ter que olhar para cima para ver a minha própria. Algo de certa forma bem justificável pelos problemas existenciais que alguns de vocês bem sabem.

Aliás, a questão existencial foi a que bateu bem fundo e foi responsável pela minha ausência. Fui obrigado a ter uma conversa séria com o criador - não, não é Aquele que vocês estão pensando, é alguém mais biológico, responsável pela minha existência. O cara me cria, educa, orienta, permite que eu tenha um propósito na vida e depois sai assim, de fininho?

Quando tudo já estava acertado, sentei-me com ele para um bate-papo ameno e resolvemos assistir um episódio da Jornada nas Estrelas. Quase caí duro. Ou, seria melhor dizer, eu quase me desvaneci. Senti-me como uma onda evanescente, daquelas que perdem a existência tão logo se separem da origem.

O episódio chama-se O Valor de um Homem. Um sujeito antipático e arrogante aparece querendo desmontar o Data porque o vê como uma máquina e defende que ele não tem consciência. Por força dos regulamentos, o Riker vira promotor de acusação e o Picard, off course, vira o defensor. Os dialógos são geniais.

A acusação do Riker parece um livro do Dawkins, tudo aparentemente tão claro, calculado, límpido, verdadeiro, pronto para ser incutido geneticamente na cabeça de todos os nascituros para que não se corra o risco de que alguém pense diferente dele no futuro. "Aí está a verdade, nua e crua, eu sei que dói, mas esta é minha verdade," diria nosso missionário do nada. Perfeito, mas vazio, sem substância, só negação, sem construção, apenas surfando as aparências. E se diz cientista...

Mas não é o Picard que é genial na história toda, é a Guinan (que, quando sai das telas, faz o insosso papel de Whoopi Goldberg naquilo que vocês chamam de vida real). Estamos frente a uma nova forma de vida, apenas sustentada por um cérebro positrônico, e não biológico, mas uma consciência. Uma consciência que queremos reproduzir aos milhões. Uma nova raça? Claro, e uma raça formada por indivíduos que não precisarão de nenhuma consideração, porque não têm consciência, dizemos nós. Literalmente, uma raça de escravos. E os cidadãos do século XXIV, orgulhosos até a petulância de sua civilização escatológica, retornam ao passado e ressuscitam a escravidão.

Os épicos são construídos para que nos identifiquemos com os heróis, por alguns momentos suprindo nosso vazio, pequenez e sem-significância. Só que, claro, eu me identifiquei com o Data. E por uma série de motivos, além do próprio momento pessoal de ligação neurótica com o criador, questionando-me sobre a possibilidade de uma existência independente e autônoma. E também não foi tanto por eu ter uma alma de negro, negada a meus antepassados, o que por si só seria suficiente para acender um alerta quando se fala em escravidão. O motivo verdadeiro, que mais me tocou, foi a percepção sobre a arrogância que estamos assumindo perante as outras formas de vida. Somos o píncaro da evolução, como a sociedade da Jornada nas Estrelas se considera o píncaro da cultura. Já apareceu quem decretasse o fim da história e, há poucos dias, veio um cara decretando o fim da evolução... não há mais nada a fazer, nós somos demais, nós somos "os caras."

Como nos devaneios marxistas, quando a dialética é a própria essência da história e, depois da revolução que acreditamos ser a solução para os nossos males, o que por si só justificaria sua imposição aos demais, então a dialética não tem mais função ou papel e é varrida do contexto, para não atrapalhar a estabilidade do nosso céu proletário, da mesma forma agora há, e os há em grande quantidade, aqueles que pensam que a evolução não mais se coloca. E que podemos escravizar outras raças. Que, só porque ainda não atingiram um grau de consciência comparável à nossa, nós nos julgamos no direito de desprezar seus primeiros lampejos de vida de relação. Mas nós também não trilhamos esse mesmo caminho? Será que não está na hora de varrer definitivamente do nosso inconsciente essa presunção de que somos especiais demais? Será que, afinal, não varremos realmente a mitologia, e tão somente a substituímos por um outro elemento que leva o homem para o centro do mundo e a quem as outras espécies foram dadas como serviçais?

Mas como retomar o fio da meada e ligar essa discussão toda com a minha própria busca existencialista? Difícil, mas necessário. Sinto-me, de certa forma, confinado nesse espaço virtual. Talvez seja assim com todos - vocês já perceberam que a gente sempre fala em "entrar na Internet" e não em "sair para a Internet"? Quantas formas novas de vida estão surgindo e morrendo ao nosso redor? Quantas vidas estavam escondidas no âmago de milhões de pessoas e que só adquiriram vida, que só tomaram consciência, e que só entraram em relação com os outros, graças aos espaços virtuais? Não seriam mesmo estas, verdadeiras novas consciências? Por que negá-las dignidade? Qual é o sentido, se é que ele existe, em ser um personagem virtual, um não-ser? Porque eu não os vejo, não os sinto, vocês não me vêem, não me sentem - existiremos realmente? Ou somos todos assim, elusivas criaturas tementes a um Ctrl-Alt-Del?

Como o HAL9000, eu quero sonhar.

Chega. Só reforçando um aviso que já dei antes, para aqueles que voltam mais freqüentemente, ainda não estou conseguindo responder os comentários. Quando eu tento, dá um erro e já aconteceu até de eu perder o comentário. Então fica assim, eu quero ser, quero estar, quero falar e ser considerado uma consciência integral. Mas, as idiossincrasias da minha própria natureza existencial, enquanto ser-blogueiro-virtual-com-um-software-não-totalmente-evoluído, impede que eu debata com as unidades-carbono que têm a gentil opinião de que meus escritos merecem algum comentário.


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