O movimento pela internacionalização da Amazônia começou sutil há vários anos. Agora ele ganhou fôlego e já é defendido explicitamente por autoridades de várias partes do mundo.
E a pressão agora chega também ao ambiente científico, utilizando, claro, os relatórios do IPCC como referência e como lastro. E chega com um viés político extremamente preocupante. É a velha história de querer usar a ciência para justificar posições políticas.
Aquilo que o Paul Feyerabend sempre alertou e sempre lutou contra - mas pouco conseguiu, se é que conseguiu alguma coisa. O máximo que se fala dele é que ele tentou "macular o método científico" - coisas de um direitismo felizmente inexpressivo que agora se apresenta sob o codinome de "céticos" - uma postura política autoritária e perigosa que vem ganhando muito eco entre a juventude universitária. Mas vou deixar para falar sobre isto em outro post.
Agora quero chamar a atenção para dois fatos marcantes que aconteceram nos últimos dias, um apontando diretamente para a internacionalização da Amazônia e outro mostrando como um discurso pretensamente avançado logo se transforma em radicalismo abestalhado.
A National Science Foundation divulgou em seu site um release sobre um artigo publicado na revista Science. O release vem com o interessante nome de If a Tree Falls in the Forest, and No One Is Around to Hear It, Does Climate Change? - Se uma árvore cai na floresta, e ninguém está perto para ouvir, o clima muda?
À primeira vista, parece coisa de quem não "acredita" em aquecimento global (é, a coisa aqui também já tá virando matéria de fé). Quando eu vi só o título, me ocorreu que eles estariam tentando dizer algo do tipo: "Se árvores caem todos os dias de forma natural, talvez haja uma preocupação desmedida..." ou coisa do tipo. O que de imediato acendeu a luz amarela e me fez ler o artigo inteiro. Vindo da NSF uma postura dessas seria, no mínimo, estranhíssima.
Mas não. Eles logo começam falando sobre a necessidade, defendida pelo cientista Gordon Bonan, de políticas legislativas para mitigar o aquecimento global. É... leis. Leis nacionais ou leis internacionais?
O pesquisador começa defendendo estudos que nos levem a entender o papel que as florestas desempenham no aquecimento global. Para, logo em seguida, já dar a resposta completa, com todo o veredito daquele tipo "A ciência comprova." Leiam só:
Primeiro ele fala:
"As florestas têm sido propostas como uma possível solução, de forma que é imperativo que nós entendamos completamente como as florestas influenciam o clima." (grifos do neguinho aqui)
Para em seguida expor-se completamente:
"Na Amazônia, a floresta tropical remove dióxido de carbono da atmosfera. Isto ajuda a mitigar o aquecimento global diminuinto as concentrações de gases causadores do efeito estufa na atmosfera. Estas florestas também bombeiam umidade na atmosfera por meio da evapotranspiração. Isso resfria o clima e também ajuda a mitigar o aquecimento global."
Uai, pesquisa para que então se o cara já sabe tudo? Só faltam as leis. E quem deve fazer as leis para proteger as florestas que agora são patrimônio da humanidade? Aquelas republiquetas de banana lá da América do Sul é que não, né?
É certo que esses efeitos já foram pesquisados e há muito material disponível, mas qual cientista em sã consciência diria que já entendemos como as florestas impactam o clima global, assim de forma tão completa quanto ele propõe? Só cientistas que não têm mais a ciência como profissão, mas a política.
Não estou dizendo, pelamordedeus, que devemos continuar destruindo a floresta porque "nada está provado". Claro que não. Temos que parar com esse desmatamento insano o quanto antes.
O que estou dizendo é que não podemos deixar que a ciência sirva de anteparo para intenções políticas muito claras, de dominar mais territórios e criar planos de exploração do tipo criado para os campos de petróleo do Iraque. "Eles iam usar para comprar armas de destruição em massa, então nós tomamos deles e usamos para trazer dividendos para os investidores do mundo civilizado."
Ou vocês acham que o interesse é pelo bem da humanidade? Eu sou o humano o suficiente para sustentar que, se a floresta amazônia é realmente essencial para a garantia de um clima estável no planeta, e se os brasileiros e todos os outros povos cujos países são cobertos pela floresta não têm condições de cuidar dela, então, em nome da humanidade, precisamos mesmo cuidar dela da forma que for necessário.
Mas está claro que não é isto que está acontecendo no momento. Que o Al Gore quer ser o primeiro Presidente Mundial todo mundo já percebeu. Mas acreditar que é para cuidar do bem-estar de todas as gerações futuras? Ah vá..., aí já é acreditar em contos da carochinha. Por que não começamos cuidando da geração atual, que está morrendo de fome? Estamos falando de impérios, meus caros, e isso é pensado em termos de séculos. Os norte-americanos não querem que seu império sucumba como o inglês e menos ainda como o romano. O Hitler planejou um império que duraria 1000 anos. E quase tudo baseado em não ensinar matemática para os não-arianos - sabiam dessa?
Pois é, dá para falar muito sobre isso, mas isto aqui é um post de um blog e não um tratado.
Vem então o segundo fato que eu citei. A lamentável morte do site WorldChanging. Não, ele não saiu do ar, não morreu de corpo, por assim dizer, ele morreu de alma. Foi criado pelo Jamais Cascio (que agora está no Open the Future) e foi brilhante enquanto foi dirigido por ele.
Agora os caras resolveram apagar os comentários de quem não concorda com eles... É, só o silêncio bastaria para "comentar" uma maluquice dessas. É isso que eu chamo de radicalismo abestalhado. Só falta falar que os discordantes são terroristas. Aí já pode prender eles sem julgamento.
Um site que nasceu para discutir mudanças rumo a um mundo melhor, assume agora que quer todas as mudanças para um mundo melhor, desde que seja o mundo melhor já definido nas cabeças deles - para eles, é claro.
"Posso discordar de tudo o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo," talvez tenha dito o Voltaire (dito, diria o Odorico Paraguaçu, já que parece que isso não está escrito em nenhuma de suas obras). É a essência da democracia.
É nisso que me bato quando falo do uso da ciência como arma política - como arma da má política, entenda-se do autoritarismo. E aqui a coisa vai além, eles estão transformando a ciência em matéria de fé. "Há os que crêem nas nossas teorias, e esses terão seus comentários salvos, e há aqueles que não crêem, e esses terão seus comentários deletados para toda a eternidade."
É como se o saber científico atual fosse algo pleno, já completo, como se nada restasse a ser descoberto, se nenhuma teoria necessitasse ser refeita, aprimorada, reconstruída, substituída. Será que alguém imagina que dentro de 100, 500 ou 1000 anos nós teremos as mesmas explicações que temos hoje para tudo o que nos cerca? Esses caras imaginam justamente isso, porque eles acreditam que em seus livros reina todo o saber acessível à humanidade. Uma dádiva divina, talvez, que só eles compreendem.
Rest in Peace, WorldChanging, que um mundo em mudança nem sempre é um mundo em mudança para todos. E as mudanças que vocês defendem, com os métodos que vocês usam, não me interessam de forma nenhuma.
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